A recaptura de um atum-patudo marcado em 2016 no Atlântico equatorial está a oferecer aos cientistas uma oportunidade rara para reconstruir o crescimento real da espécie ao longo de quase uma década e melhorar os modelos usados na gestão das pescarias.
O exemplar, da espécie Thunnus obesus, foi capturado recentemente pelo palangreiro galego Escualo Cuatro, da empresa MAZAIDO. O peixe transportava uma marca externa colocada em agosto de 2016, ao largo de Cabo Verde, por um investigador da AZTI, no âmbito do Atlantic Ocean Tropical Tuna Tagging Programme, promovido pela ICCAT.
Na altura da marcação, o atum media 55 centímetros. Quase dez anos depois, foi recapturado com 158 centímetros de comprimento e 79 quilos de peso.
A importância científica deste exemplar resulta da utilização, em 2016, de um marcador químico injectado no peixe, que deixou uma referência permanente e datada nas suas estruturas ósseas. Essa marca permite agora aos investigadores medir com precisão quanto cresceu o animal em meio natural.
Os cientistas irão analisar os otólitos, pequenas estruturas calcificadas que registam o crescimento dos peixes ao longo da vida, de forma semelhante aos anéis das árvores. A leitura destas estruturas permite reconstruir a idade e a taxa de crescimento do atum-patudo com elevado detalhe.
Segundo Patricia Lastra, investigadora da AZTI, este peixe marcado constitui um exemplar de referência, porque permite validar critérios e métodos de leitura aplicados ao conjunto da população.
A análise decorre no âmbito do projecto europeu ITUNNES, coordenado pela AZTI e co-financiado pela União Europeia, que pretende melhorar o conhecimento biológico sobre os atuns tropicais e reforçar a base científica das decisões de gestão pesqueira.
A informação é particularmente relevante porque as avaliações científicas que sustentam quotas de captura e medidas de conservação dependem de dados fiáveis sobre crescimento, maturidade e longevidade das espécies. No caso do atum-patudo, uma espécie de crescimento lento e maturação tardia, erros na estimativa da idade podem influenciar a avaliação do estado da população e, consequentemente, as recomendações de pesca sustentável.
A recaptura só foi possível graças à colaboração entre o sector da pesca, a comunidade científica e as entidades de gestão. A tripulação do Escualo Cuatro reconheceu a marca, preservou o exemplar e notificou a ICCAT, a AZTI e o Instituto Espanhol de Oceanografia do Conselho Superior de Investigações Científicas.
Depois de desembarcado, o peixe foi preservado com o apoio da empresa galega WOFCO, antes de ser transferido para a equipa científica do projecto ITUNNES.
Os resultados da análise deverão alimentar os modelos de avaliação de stocks usados no apoio à gestão internacional das pescarias de atum, contribuindo para recomendações mais robustas e actualizadas.
Fotografia: Allen Shimada, NOAA NMFS OST










