Tempestade tropical Gonzalo ameaça frota da Golden Globe Race junto a Cabo Verde

26 Set, 2026 | Vela

A tempestade tropical Gonzalo está a criar condições particularmente exigentes para vários velejadores da McIntyre Golden Globe Race 2026, com rajadas previstas até 55 nós, mudanças rápidas na direção do vento e ondulação que poderá atingir os cinco metros. A frota encontra-se na região de Cabo Verde e os barcos mais expostos avançam para sudoeste, numa fase da prova em que a posição de cada concorrente relativamente à trajetória do sistema poderá fazer uma diferença significativa.

O sistema de baixa pressão que vinha a influenciar a regata evoluiu entretanto para tempestade tropical. De acordo com a informação divulgada pela organização na sexta-feira, 25 de setembro, quatro skippers já enfrentavam ventos entre 30 e 35 nós, enquanto o National Hurricane Center indicava ventos sustentados máximos de 40 nós e deslocação de Gonzalo para norte-noroeste a cerca de sete nós.

A previsão apontava para um reforço dos ventos sustentados até cerca de 45 nós, com rajadas que poderiam alcançar os 55 nós durante a sexta-feira e noite seguinte. Mais do que a intensidade máxima do vento, a organização chama a atenção para a combinação de fatores que os velejadores poderão encontrar à passagem do sistema, incluindo alterações rápidas da direção do vento e um estado do mar desorganizado, com ondulação proveniente de diferentes quadrantes.

Louis Kerdelhu, Gunnar Christensen e Matt Woodside estão entre os velejadores que a direção da prova considera mais expostos. Kerdelhu navega no ketch Biscay 36 IE Charge, Christensen no Hans Christian 34 Pompoen e Woodside no Cape George 36 Tipi Haere. Os três prosseguem para sudoeste numa zona onde poderão enfrentar algumas das condições mais fortes associadas à tempestade.

A passagem de Gonzalo poderá obrigá-los a gerir em poucas horas uma rotação dos ventos fortes de sul para leste e posteriormente para norte. Num contexto de navegação solitária, esta evolução implica sucessivas adaptações do pano, controlo do piloto automático ou sistema de governo e gestão do cansaço, enquanto o estado do mar poderá tornar-se progressivamente mais confuso.

Mais a oeste, Henry Wootton, a bordo do Cape George 36 Privateer, e a norueguesa Helga Marie “Mara” Løvenskiold Kveseth, no Saltram Saga 36 Showgirl, poderão beneficiar da posição conquistada nas últimas 24 horas. A organização considera que a progressão para oeste poderá permitir aos dois skippers evitar a zona mais severa do sistema, caso consigam manter o avanço ao longo da passagem da tempestade.

A situação é diferente para Guido Cantini, que se aproxima de uma passagem pelas ilhas de Cabo Verde com o Vancouver 34 Classic Hannah of Cowes. Daniel Pinsky, no Baba 35 Exodus, navegava nas proximidades de Santo Antão e conseguiu progredir para sul, em direção à Zona de Convergência Intertropical, evitando previsivelmente os ventos mais intensos.

Isa Rosli, no OE 32 Olleanna, escolheu nas últimas horas uma rota mais a sul. Segundo a direção da prova, essa opção contrariava os avisos meteorológicos enviados pela organização e levantou a possibilidade de o skipper canadiano não ter recebido o alerta. A rota deverá colocá-lo perante ventos fortes de oeste e posteriormente de noroeste, embora a velocidade resultante possa ajudá-lo a manter-se afastado do centro do sistema.

Mais a norte, o sueco Pär Nyman, no Rustler 36 Lazy Otter, deverá escapar às piores condições. A organização sublinha, contudo, que todas estas projeções permanecem dependentes da evolução da trajetória de Gonzalo e da progressão de cada barco.

Imagens em direto mostram agravamento das condições

A evolução do tempo pôde ser acompanhada através do GGR Window Live, sistema de transmissão instalado nos barcos da regata. Na noite de 24 de setembro, as imagens mostraram o suíço Etienne Messikommer a reduzir pano no Tradewind 35 Bernard e a preparar uma staysail rizada enquanto o vento aumentava e o mar se aproximava dos três metros.

O sistema utiliza ligação Starlink para transmitir imagens em sentido único, permitindo acompanhar os velejadores sem lhes fornecer informação exterior através do equipamento. Desta forma, a organização procura manter o princípio de isolamento que caracteriza a Golden Globe Race, ao mesmo tempo que oferece uma visão em direto das condições enfrentadas pelos participantes.

A organização estima que o impacto da edição de 2026 nas redes sociais tenha crescido entre 400 e 500% em comparação com 2022, com particular interesse nas transmissões em direto e nas atualizações do YB Race Tracker.

Dois velejadores permanecem parados para reparações

Enquanto a maior parte da frota enfrenta Gonzalo no Atlântico, dois participantes continuam retidos em terra devido a problemas técnicos. Guy deBoer permanece na Marina Rubicón, em Lanzarote, com o Tashiba 36 Spirit, à espera de um relatório técnico que deverá determinar as reparações necessárias nas chapas de corrente e na estrutura do casco.

Os trabalhos terão de ser avaliados, executados e posteriormente validados antes de o norte-americano receber nova autorização para prosseguir na Chichester Class. Selim Yalcin permanece entretanto em Cádis, onde tenta resolver problemas de rádio a bordo do Endurance 35 Help Disabled Children. À data da atualização, a organização ainda não tinha confirmado um plano para o regresso do velejador turco à competição.

Golden Globe Race lança nova plataforma estatística

Em terra, a organização anunciou também o lançamento do GGR Stats, uma nova plataforma que reúne estatísticas detalhadas das edições de 2018, 2022 e 2026 da Golden Globe Race. O sistema, com lançamento previsto para este sábado, 26 de setembro, permitirá acompanhar velocidades médias, distâncias navegadas, percursos realizados em 24 horas, passagens por pontos importantes e comparações entre barcos e skippers.

Desenvolvida pelo voluntário da GGR Oron Mizrachi, a plataforma pretende acrescentar uma nova dimensão ao acompanhamento da prova, permitindo comparar opções de rota, desempenho diário, recordes e diferenças entre as várias edições.

No mar, porém, a prioridade imediata continua a ser a passagem da tempestade tropical Gonzalo. Para vários concorrentes, as próximas horas deverão representar um dos primeiros grandes testes meteorológicos desta edição da Golden Globe Race, numa prova em que cada skipper navega sozinho e terá de gerir sem assistência direta a combinação entre vento forte, mar alterado, fadiga e constantes mudanças nas condições.

 

 

Fotografias: GGR2026 / Don McIntyre / YB Tracking

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