Materiais produzidos a partir de algas, instrumentos acessíveis para estudar o plâncton e uma nova geração de ímanes permanentes sem terras raras foram as três propostas apresentadas durante uma sessão de pitches acompanhada pelo Notícias do Mar em Brest, no âmbito da Sea Tech Week 2026.
A sessão realizou-se a 6 de outubro durante o programa destinado à imprensa e reuniu Gwëmon, FairScope e HITMag, três empresas com tecnologias muito diferentes, mas ligadas por uma preocupação comum com novos materiais, conhecimento científico, sustentabilidade e redução da dependência de recursos críticos.
Cada empresa dispôs de poucos minutos para apresentar a tecnologia, o problema a que procura responder e o caminho previsto para colocar as soluções no mercado.
A Gwëmon levou a Brest um material produzido a partir de algas castanhas da Bretanha, adquiridas a produtores localizados a menos de 50 quilómetros da sua oficina, no norte do Finistère. As algas são combinadas com um aglutinante de origem 100% biológica desenvolvido especificamente para o material.
O processo de fabrico não exige cozedura, uma opção destinada a reduzir o impacto de carbono, e o resultado pode ser trabalhado de forma semelhante a um painel de partículas de madeira. Pode ser perfurado, cortado e fresado sem utilização de colas sintéticas, abrindo possibilidades de aplicação em arquitetura de interiores, mobiliário, decoração e design de produto.
A empresa já desenvolveu diferentes aplicações, desde revestimentos de paredes a peças decorativas e elementos produzidos por medida, e pretende agora avançar para formatos maiores, incluindo tampos e painéis. Entre os objetivos estão ainda o desenvolvimento de uma rede de distribuição em França e noutros mercados europeus e a certificação do material para permitir a entrada em projetos públicos e privados de maior dimensão.
Da valorização das algas, a sessão passou para organismos muito mais pequenos. A FairScope, empresa sediada em Morlaix, desenvolve o PlanktoScope, um instrumento concebido para facilitar a observação e quantificação das comunidades de plâncton.
O sistema combina recolha de amostras, aquisição de imagem, segmentação, carregamento de dados, classificação e análise. A versão PlanktoScope V3 trabalha num intervalo de imagem entre 10 e 400 micrómetros e integra um sistema destinado a evitar a sedimentação das amostras durante a observação.
A FairScope procura tornar este tipo de instrumentação mais acessível a investigadores e instituições que estudam o plâncton, organismos com um papel determinante no funcionamento dos oceanos e nos ciclos globais do carbono e do oxigénio.
Segundo os dados apresentados pela empresa em Brest, existem atualmente 444 unidades PlanktoScope instaladas em 124 laboratórios de 30 países. Entre as instituições referidas estão universidades e centros de investigação como Stanford, MIT, Columbia University, Sorbonne Université, Woods Hole Oceanographic Institution, Monterey Bay Aquarium Research Institute e NOAA.
Uma das utilizações apresentadas pela FairScope está ligada à Route du Rhum e ao barco WeExplore. O projeto prevê processos semiautomatizados de recolha e concentração de amostras, aquisição automática de imagens e envio de dados recolhidos no mar, aproximando este tipo de observação científica das plataformas que navegam no oceano.
A terceira proposta trouxe para a sessão uma questão diferente, mas igualmente ligada à transição tecnológica e energética. A HITMag está a desenvolver ímanes permanentes de nova geração sem recurso a terras raras, procurando reduzir simultaneamente a dependência europeia de matérias-primas críticas e a pegada ambiental associada a estas tecnologias.
Os ímanes permanentes são utilizados em numerosas aplicações industriais e energéticas, mas a cadeia de abastecimento mundial permanece fortemente concentrada. Na apresentação feita em Brest, a HITMag estimou que mais de 92% da produção mundial está localizada na China e destacou a elevada dependência europeia das importações.
A empresa pretende responder a esse problema através de ímanes concebidos para serem mais eficientes, adaptáveis às necessidades dos clientes e produzidos na Europa sem terras raras ou outros materiais considerados críticos. A estratégia apresentada inclui também redução do consumo energético e da pegada de carbono do processo produtivo.
Criada em 2025 e sediada em Plouzané, a HITMag indicou contar atualmente com cinco trabalhadores e dois consultores científicos e ter captado 1,6 milhões de euros de financiamento. A empresa vê a tecnologia como uma forma de reforçar a autonomia industrial europeia, particularmente em aplicações relacionadas com a produção de energia.
As três apresentações mostraram diferentes caminhos através dos quais a inovação ligada ao mar pode chegar ao mercado. No mesmo espaço cruzaram-se a valorização de um recurso biológico regional, novas ferramentas para aumentar o conhecimento científico do oceano e uma tecnologia destinada a reduzir a dependência de matérias-primas estratégicas.
Foi também uma pequena amostra do ecossistema que o Notícias do Mar encontrou durante a cobertura da Sea Tech Week em Brest, onde investigação, empresas emergentes e indústria surgem frequentemente ligadas numa tentativa de transformar conhecimento científico e recursos do oceano em soluções com aplicação económica.
A cobertura do Notícias do Mar em Brest continuará nos próximos dias com outras tecnologias, empresas e estruturas visitadas durante a Sea Tech Week 2026.








