A aproximação ao Cabo Finisterra está a abrandar a frota da La Solitaire do Figaro Paprec, numa fase em que o vento caiu, a classificação voltou a mexer e a primeira etapa entra num novo momento decisivo.
A 57.ª edição da regata passou, em poucos dias, de vento forte, aguaceiros e depressões para um cenário de anticiclone e vento fraco, que está a travar o avanço dos 35 velejadores ainda em prova rumo a Vigo, meta da primeira etapa. A mudança de padrão meteorológico está a obrigar os skippers a recentrar a atenção na recuperação física, na verificação do material e na definição da melhor estratégia para a aproximação à costa espanhola.
As condições mais calmas permitiram também inspecionar barcos e mastreação. Hugo Cardon, em Sarth’Atlantique, subiu duas vezes ao topo do mastro para verificar o estado do equipamento. O velejador explicou que não havia perigo imediato para o barco, mas que queria evitar perdas de rendimento numa fase final em que poderá precisar de todo o guarda-roupa de velas. A operação, mesmo em mar aparentemente mais tranquilo, manteve-se fisicamente exigente devido à ondulação residual.
Na frente da frota, Hugo Dhallenne, em Skipper Macif 2025, passou para a liderança depois de uma opção mais a oeste durante a longa descida a partir da Bretanha. O posicionamento revelou-se favorável nesta fase e colocou o skipper numa posição forte para negociar a aproximação a Espanha. O próprio Dhallenne admitiu satisfação por ter chegado a esta fase sem danos no barco e explicou que procurou manter-se mais alto e mais a oeste para chegar melhor colocado à zona decisiva do percurso.
Na segunda posição seguia Davy Beaudart, em Nautymor, também beneficiando da rotação do vento. O francês descreveu as 48 horas anteriores como particularmente duras, com o barco muito adornado à bolina e a bater fortemente nas ondas, e sublinhou que optou por não forçar demasiado, privilegiando a preservação do barco e da condição física. Disse ainda que aproveitou a acalmia para rever afinações e secar o interior do barco antes da fase final, que considera muito tática.
Entre os testemunhos do dia esteve também Chloé Le Bars, em Skipper Macif 2026, que procurava recuperar energia e confiança depois de um início de etapa mais complicado. A velejadora mostrou-se satisfeita com o regresso do sol na aproximação a Espanha, mas reconheceu ter ficado descontente com o posicionamento durante a passagem da frente e com o desempenho na longa amura a estibordo que se seguiu. A quebra no ponto de amura da vela J2 agravou as dificuldades, embora considere que esta nova fase abre uma espécie de segunda oportunidade na etapa.
A incerteza estratégica domina agora a frota. Com vento fraco instalado, qualquer ganho de algumas décimas de milha pode tornar-se relevante e o posicionamento tático volta a ser determinante. A principal dúvida passa por perceber se os skippers irão privilegiar uma rota mais próxima da costa ou uma opção mais ao largo. O texto recorda que, no ano passado, a escolha offshore foi compensadora, nomeadamente para Hugo Cardon.
O Cabo Finisterra é o próximo ponto-chave do percurso e a organização estimava que a frota o alcançasse dentro de cerca de 12 horas. A partir daí, a entrada na fase final para Vigo poderá voltar a mexer com a classificação, num cenário em que a falta de vento promete ser tão seletiva como a frente que castigou os barcos nos dois dias anteriores.
A primeira etapa da La Solitaire do Figaro Paprec confirma assim, uma vez mais, o caráter muito completo desta regata a solo: depois de vento forte e mar pesado, a frota enfrenta agora um troço em que paciência, leitura meteorológica e capacidade de reposicionamento podem pesar tanto como a velocidade pura.
Fotos: © Thomas Campion











