A inovação aplicada à náutica e à economia do mar ganha espaço próprio na 66.ª edição do Salão Náutico Internacional de Génova, onde onze start-ups apresentam soluções que vão da inteligência artificial à impressão 3D, passando pelo armazenamento de energia, cibersegurança, microplásticos, baterias estruturais e novos sistemas de apoio à operação de portos, marinas e embarcações.
As empresas estão reunidas na Blue Arena, nova área do Salão criada para aproximar inovação emergente, indústria, formação e novos públicos. A iniciativa resulta do trabalho desenvolvido pela Confindustria Nautica em colaboração com o Ministério italiano dos Negócios Estrangeiros e Cooperação Internacional e com a Italian Trade Agency, procurando criar condições para que novas empresas testem ideias, estabeleçam contactos com o mercado e encontrem aplicações concretas para as suas tecnologias no setor náutico.
Uma das áreas com maior presença é a gestão inteligente de energia e de sistemas. A AI Cure desenvolveu um Digital Twin baseado em inteligência artificial capaz de simular fluxos energéticos, antecipar falhas e automatizar a gestão de sistemas em portos, marinas e barcos. A tecnologia pretende reduzir consumos, emissões e custos de operação e já foi validada no âmbito do programa FAROS da CDP Venture Capital e testada no Porto de Taranto.
Também centrada na eficiência energética, a I-TES apresenta baterias térmicas baseadas em materiais de mudança de fase. O sistema permite armazenar calor ocupando, segundo a empresa, cerca de metade do espaço necessário num sistema convencional de água, podendo ainda aproveitar o calor produzido pelos motores durante a navegação para utilização posterior quando o barco está atracado.
A eletrificação surge igualmente através da Volta Structural Energy, que procura integrar o armazenamento de energia diretamente na estrutura do barco. A solução elimina a necessidade de um conjunto de baterias separado e pretende aumentar a quantidade de energia disponível sem acrescentar peso ou volume equivalente. Num caso de estudo marítimo referido pela empresa, a tecnologia permitiu armazenar 8,7 vezes mais energia sem massa adicional face a uma bateria AGM convencional.
Na produção e manutenção de barcos, a CarveLab apresenta uma plataforma robótica que reúne impressão 3D com pellets, fresagem CNC, digitalização tridimensional e reforço estrutural. O objetivo é permitir fabricar componentes personalizados, peças de substituição e elementos destinados a trabalhos de refit sem necessidade de moldes específicos, incluindo a utilização de termoplásticos recicláveis. A mesma tecnologia pode digitalizar barcos existentes e apoiar intervenções sobre geometria, peso e desempenho.
A digitalização de bordo está também representada pela System Technology Innovations, que trabalha na integração de eletrónica, software, Internet das Coisas, conectividade, cibersegurança e energia sustentável. Para o setor náutico, está a desenvolver uma unidade eletrónica modular destinada ao controlo de luzes, bombas, atuadores e outros equipamentos, com capacidade de diagnóstico e monitorização à distância.
A Y Digital segue uma abordagem semelhante através da recolha e análise do comportamento real de barcos e infraestruturas portuárias. A plataforma Y Sens combina sensores, dados operacionais e um gémeo digital que evolui com a utilização do ativo, procurando detetar anomalias e sinais precoces de fadiga ou degradação em cascos, motores, sistemas, materiais compósitos e infraestruturas. O objetivo é reduzir paragens imprevistas, melhorar a segurança e prolongar a vida útil dos equipamentos.
Os problemas ambientais também ocupam uma parte importante desta seleção. A NEOEAST desenvolveu o MMPS, um sistema destinado à separação e monitorização de microplásticos em circuitos de refrigeração, sistemas de descarga e águas de portos e marinas. A empresa trabalha em paralelo na plataforma WAVEASY, que pretende digitalizar a relação entre proprietários, empresas de charter e operadores de infraestruturas náuticas.
A Limenet apresenta uma solução dirigida à remoção permanente de dióxido de carbono e à descarbonização da produção de cal. A tecnologia combina um calcinador elétrico alimentado por energia renovável com um processo que transforma o CO₂ em bicarbonatos de cálcio destinados ao armazenamento no mar. A empresa trabalha ainda no conceito de Ocean Liming, que procura aumentar a alcalinidade da água e a capacidade dos oceanos para absorver dióxido de carbono.
Entre as soluções mais diretamente relacionadas com a utilização do barco está a proposta da Zefmar. A empresa desenvolveu a Abissa, uma âncora fabricada em aço inoxidável 316 através de impressão 3D, com um sistema que permite aumentar a rotação das unhas para facilitar a libertação em fundos rochosos. O desenho desmontável procura igualmente simplificar a arrumação a bordo e reduzir o risco de perda de âncoras, cabos e correntes no fundo do mar.
A seleção inclui ainda tecnologias com aplicação nos serviços e na logística. A 4T4 Technology trabalha na automatização das decisões associadas à movimentação de contentores, coordenando em tempo real camiões e unidades de carga para reduzir tempos de espera e melhorar a produtividade dos terminais. Já a Velto desenvolve uma plataforma que transforma o WhatsApp num canal comercial estruturado, destinado, entre outros operadores, a estaleiros, brokers, empresas de charter, marinas, oficinas e fabricantes de componentes.
As onze empresas mostram a amplitude das áreas que estão atualmente a atrair novos projetos tecnológicos ligados à náutica. Energia, automação, dados, novos materiais, produção digital, ambiente e eficiência operacional aparecem cada vez mais interligados, com soluções originalmente desenvolvidas para outros setores a encontrarem aplicações em barcos, estaleiros, portos e marinas.
Ao integrá-las na Blue Arena, o Salão de Génova procura aproximar estas empresas das estruturas industriais já estabelecidas e criar um ponto de contacto entre investigação, tecnologia e mercado. A aposta nas start-ups reforça assim uma das linhas da edição de 2026, que pretende mostrar não apenas novos barcos e equipamentos, mas também algumas das tecnologias que poderão influenciar a forma como a indústria náutica produz, opera e utiliza os seus ativos nos próximos anos.








