Porto de Leixões reforça capacidade enquanto empresas alertam para risco de perda de carga com restrições na VCI

22 Set, 2026 | Economia do Mar

O Porto de Leixões vai reforçar a capacidade de movimentação de contentores através de um investimento de 100 milhões de euros da Yilport no atual Terminal de Contentores Norte, enquanto a APDL prepara uma nova concessão para um futuro terminal com capacidade para um milhão de TEU por ano, 860 metros de cais e fundos a -15,5 metros.

Os projetos estiveram em destaque no segundo dia da Porto Maritime Week 2026, marcado também pelos alertas das comunidades portuárias para o impacto que as novas restrições à circulação de veículos pesados na Via de Cintura Interna (VCI) poderão ter nos custos logísticos, na competitividade de Leixões e na manutenção de algumas cargas no porto.

O investimento da Yilport, já contratualizado e com um prazo de execução de 24 meses, permitirá aumentar em 200 mil TEU a capacidade do atual Terminal de Contentores Norte, dos atuais 800 mil para um milhão de TEU por ano.

O plano prevê uma modernização profunda da infraestrutura e dos equipamentos, incluindo a instalação de três novas gruas STS, seis RTG no Terminal Norte e quatro RTG no Terminal Sul, bem como a automatização e eletrificação de equipamentos.

Está igualmente previsto o aprofundamento do cais para -12,5 metros, uma intervenção destinada a criar condições para a receção de navios de maior dimensão e a melhorar a eficiência da operação portuária.

Duarte Piteira, da Yilport Iberia, classificou a intervenção como um “retrofit total” do Terminal de Contentores Norte, com impacto nas condições de trabalho, eficiência operacional, capacidade instalada e possibilidade de captação de nova carga.

Leixões movimenta atualmente cerca de 709 mil TEU, face a uma capacidade instalada de 800 mil TEU, o que corresponde a um fator operacional próximo dos 88%. Segundo João Neves, presidente da Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo (APDL), a expansão permitirá baixar esse indicador para cerca de 70%, criando maior margem para acomodar crescimento futuro.

A intervenção da Yilport surge como resposta de curto prazo enquanto avança a preparação de uma solução estrutural para o crescimento da carga contentorizada no Porto de Leixões.

A APDL prevê lançar uma nova concessão para um futuro Terminal de Contentores Norte, com capacidade para movimentar um milhão de TEU por ano. A infraestrutura deverá avançar sobre o mar, dentro dos atuais molhes do porto, e será dotada de 860 metros de cais e fundos a -15,5 metros.

O projeto prevê ainda que o cais possa ser aprofundado no futuro até -17 metros, permitindo adaptar a infraestrutura à evolução das dimensões dos navios e às exigências do transporte marítimo internacional.

Além do aumento de capacidade, o novo terminal permitirá afastar parte da operação de contentores da frente urbana de Leça da Palmeira e reduzir as necessidades de abertura da ponte móvel, através da transferência da principal operação de contentores para o lado marítimo do porto.

“Não podemos ter apenas uma solução de longo prazo. Temos de ter uma solução imediata e de curto prazo para resolver o problema que temos atualmente”, afirmou João Neves, enquadrando o investimento da Yilport na estratégia global da APDL.

O plano estratégico da administração portuária prevê mais de 1.020 milhões de euros de investimento até 2035, num programa que inclui não apenas o reforço da capacidade de contentores, mas também outras intervenções destinadas à modernização, acessibilidade e adaptação futura do porto.

VCI preocupa comunidade portuária

O anúncio do reforço da capacidade de Leixões coincidiu com um debate sobre as consequências das novas restrições à circulação de veículos pesados na Via de Cintura Interna.

Representantes de empresas e comunidades portuárias alertaram para o risco de aumento dos custos do transporte terrestre, perda de competitividade e eventual transferência de cargas para outros portos caso as alternativas rodoviárias e ferroviárias não consigam compensar as limitações impostas na VCI.

Durante a sessão dedicada aos desafios das comunidades portuárias, Susana Pinho, representante da Comunidade Portuária da Figueira da Foz e da Altri, revelou que a empresa realiza, em média, cerca de 70 viagens de camião por dia entre Leixões e a Figueira da Foz.

Segundo a responsável, a alteração dos percursos poderá representar um custo adicional anual entre 1,5 e dois milhões de euros, caso seja mantido o atual modelo logístico.

O impacto poderá levar a Altri a reavaliar a utilização de Leixões nas suas cadeias logísticas.

“Leva-nos a fazer o exercício de perceber se efetivamente Leixões faz sentido na nossa estratégia logística”, afirmou Susana Pinho, chamando também a atenção para o aumento do consumo de combustível e das emissões associado a percursos rodoviários mais longos.

A ferrovia surge como uma das alternativas possíveis ao transporte rodoviário, mas, segundo a responsável, não dispõe atualmente de capacidade suficiente para absorver todo o tráfego em causa.

A Altri já recorre de forma intensiva ao transporte ferroviário no abastecimento das suas unidades industriais e, de acordo com Susana Pinho, a infraestrutura existente não permite acrescentar os comboios necessários para substituir os atuais movimentos rodoviários.

A preocupação foi também manifestada por representantes da Comunidade Portuária de Leixões.

Nuno David Silva, da Yilport, alertou para o aumento dos custos do transporte terrestre e considerou que Leixões enfrenta uma combinação particularmente difícil de fatores, uma vez que as novas condicionantes rodoviárias já estão em vigor, enquanto as alternativas e os investimentos ferroviários ainda não permitem responder às necessidades existentes.

Marcília Montenegro, presidente da Comunidade Portuária de Leixões, defendeu que deverá ser analisada a possibilidade de criação de um regime de exceção para os camiões com origem ou destino no porto.

A responsável considerou que a retirada dos veículos pesados da VCI não será, por si só, suficiente para resolver os problemas de congestionamento da via e sublinhou a necessidade de avaliar as consequências da medida para a competitividade portuária.

Governo aponta produção de energia renovável nos portos

A apresentação do plano de investimentos da Yilport contou também com a participação do secretário de Estado das Infraestruturas, Hugo Espírito Santo, que considerou o investimento de 100 milhões de euros “absolutamente central” para o desenvolvimento do Porto de Leixões.

O governante enquadrou o projeto na estratégia nacional PORTOS 5+, destacando o papel do investimento privado no reforço da competitividade do setor portuário.

A estratégia PORTOS 5+ para 2025-2035 assenta em cinco grandes eixos: investimento e crescimento, descarbonização e sustentabilidade, intermodalidade e conectividade, digitalização e automação e integração local, regional e setorial.

Segundo Hugo Espírito Santo, o Governo pretende agora ir além dos investimentos já previstos em sistemas OPS, reforço das redes elétricas, subestações e eletrificação dos equipamentos portuários, avançando também para uma estratégia nacional de produção de energia renovável nos portos.

“Temos de colocar os portos ao serviço da produção elétrica renovável”, afirmou.

O secretário de Estado revelou que têm existido contactos com a Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN) com vista ao desenvolvimento de um enquadramento transversal para a criação de uma estratégia nacional de produção de energia e de comunidades energéticas nos portos.

A criação de comunidades energéticas já está prevista na estratégia PORTOS 5+, que inclui também investimentos em sistemas de alimentação elétrica aos navios em porto, eletrificação de equipamentos e reforço da intermodalidade ferroviária.

Hugo Espírito Santo destacou ainda o trabalho em curso na preparação de uma nova geração de concessões portuárias e afirmou existir “um apetite enorme de vários operadores e armadores” pelos novos projetos.

Segundo o governante, a estratégia não passa apenas pelo lançamento de novas concessões, mas também pela capacidade de atrair investimento, operadores, carga e hinterland que sustentem o crescimento do sistema portuário nacional.

A execução do PORTOS 5+ está a ser acompanhada mensalmente por um grupo de trabalho coordenado pelo secretário de Estado das Infraestruturas, destinado a identificar constrangimentos e acompanhar a implementação da estratégia nos diferentes portos.

“Temos de acelerar a máquina. Esse é o nosso desafio para o próximo ano”, afirmou Hugo Espírito Santo.

A Porto Maritime Week 2026, promovida pela Transportes & Negócios e com o Porto de Leixões como anfitrião, prossegue esta quarta-feira, 23 de setembro, com sessões dedicadas às concessões portuárias de segunda geração e à descarbonização e digitalização nos portos e no setor da economia do mar.

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