Projeto MUSA avança no Arade com investimento de 3,4 milhões e aponta Fortaleza de Santa Catarina para novo núcleo museológico

20 Mai, 2026 | Outros

O projeto MUSA deu um passo formal a 15 de maio, em Portimão, com a assinatura do protocolo que enquadra a investigação, conservação e musealização dos achados submersos do Rio Arade.

O acordo junta os municípios de Portimão e Lagoa, o Património Cultural, I.P. – Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS) e a CCDR Algarve. Financiado pelo Programa Regional Algarve 2030, o projeto representa um investimento de 3,4 milhões de euros e incide sobre o património arqueológico submerso identificado no leito do Rio Arade, em território dos dois concelhos.

O MUSA — Musealização dos Achados Arqueológicos do Fundo do Rio Arade — prevê novas sondagens, recolha integral de sedimentos, análises laboratoriais, escavações e conservação dos materiais já recuperados e dos que possam vir a ser identificados em futuras campanhas. O programa inclui ainda a criação de novos núcleos museológicos nos dois municípios e de uma reserva arqueológica subaquática visitável.

A cerimónia foi presidida pela ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, que enquadrou o projeto como uma iniciativa que transforma conhecimento científico em património acessível e integrado na vida cultural da região e do país. O protocolo foi apresentado como um modelo de gestão integrada do património cultural submerso, articulando investigação científica, conservação patrimonial e desenvolvimento regional.

O ponto de partida do projeto está ligado ao impacto das dragagens realizadas entre as décadas de 1960 e 1990 no Arade. Isabel Soares, chefe de Divisão de Museus e Património do Museu de Portimão, recorda que esse período destruiu parte do património existente, mas também revelou a riqueza arqueológica do rio e a necessidade de a estudar, salvaguardar e valorizar. Antes do MUSA, o Arade já tinha sido alvo de várias campanhas, nomeadamente através do ProArade, entre 2000 e 2005, e do CHAM, entre 2012 e 2018, ambas com participação do Município de Portimão através do museu.

Um dos eixos centrais do projeto incide sobre a conservação. O MUSA abrange mais de 1.800 artefactos guardados no CNANS, entre os quais se destacam a embarcação Arade 1 e as peças de artilharia da Ponta do Altar B, classificadas como tesouro nacional. O objetivo é assegurar que estes bens, bem como os que venham a ser recuperados, fiquem devidamente tratados, preservados e preparados para exposição a longo prazo.

Para esse efeito, o projeto inclui a aquisição de equipamentos de nova geração para o laboratório de conservação do Museu de Portimão, reforçando a capacidade técnica e científica instalada no Algarve para trabalhar património cultural subaquático. A modernização deverá também permitir uma resposta mais eficaz às necessidades de conservação associadas aos sítios e peças abrangidos pelo projeto.

Na vertente museológica, o MUSA prevê estruturas nas duas margens do Arade. Em Lagoa, a proposta passa por um novo museu arqueológico na Mexilhoeira da Carregação. Em Portimão, o plano inclui a reformulação do núcleo relacionado com a área subaquática do Museu de Portimão, valorizando a cisterna da antiga fábrica conserveira, e, numa fase posterior, a criação de um novo núcleo na Fortaleza de Santa Catarina, na Praia da Rocha.

O presidente da Câmara de Portimão, Álvaro Bila, confirmou a possibilidade de a Fortaleza de Santa Catarina acolher esse futuro núcleo museológico dedicado à arqueologia subaquática, considerando o MUSA um projeto estruturante para o Algarve. Já o presidente da Câmara de Lagoa, Luís Encarnação, destacou o potencial da iniciativa para atrair visitantes aos museus e reforçar o conhecimento sobre a história do território, do rio Arade e dos achados arqueológicos.

Ana Catarina Sousa, vice-presidente do conselho diretivo do Património Cultural, I.P., sublinhou o caráter inovador do projeto e o facto de reunir entidades municipais, regionais, nacionais e universitárias em torno de um património que considera único no país, com presença humana desde a Idade do Ferro até à época contemporânea e forte expressão romana. Também José Apolinário, presidente da CCDR Algarve, destacou o potencial do MUSA para valorização do território, reforço da coesão territorial, criação de valor económico e desenvolvimento do turismo cultural.

Além dos municípios de Portimão e Lagoa, do CNANS e da CCDR Algarve, o projeto envolve parcerias com o Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa, o Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património da Universidade do Algarve e a Administração dos Portos de Sines e do Algarve. Está igualmente prevista a produção de um museu virtual, publicações científicas e um congresso internacional para apresentação dos resultados.

Com a assinatura do protocolo, o MUSA entra assim numa fase decisiva de execução, com uma ambição que vai além da arqueologia: devolver às comunidades um conjunto de bens associados à história do rio, do mar e da ocupação humana do Algarve, criando novas infraestruturas de conservação, interpretação e visitação pública.

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