A segunda etapa da La Solitaire du Figaro Paprec arrancou este domingo entre Vigo e Pornichet, num percurso de 450 milhas náuticas que começou sob vento fraco, transições delicadas e previsão de diferenças significativas entre os 36 skippers.
Depois de uma primeira etapa marcada por vento forte e mar exigente, a frota entrou agora num cenário oposto, com condições leves e muito instáveis logo à saída da ria de Vigo. A organização antecipa uma ligação mais estratégica do que física, num quadro em que paciência, concentração e leitura meteorológica poderão pesar mais do que a velocidade pura.
Pouco depois de concluído o percurso costeiro inicial, com cerca de 90 minutos, Adrien Hardy, em Sans Nature, pas de Futur !, passou na frente na marca Paprec. A partir daí, os velejadores entraram numa fase de calmaria marcada por zonas sem vento e transições difíceis ao longo da costa, situação que começou desde logo a separar os barcos da frente dos que ficaram retidos mais atrás.
A subida para norte ao largo da Galiza deverá obrigar a vigilância constante. Com a frota ainda compacta e o vento muito irregular, qualquer escolha tática pode abrir diferenças importantes. A organização sublinha também o risco de uma navegação demasiado próxima da costa, recordando que vários skippers encalharam entre as ilhas nesta zona na edição do ano passado.
As declarações recolhidas antes da largada mostram uma leitura comum entre os concorrentes: esta poderá ser uma etapa longa, nervosa e muito aberta, apesar de ser a mais curta do percurso em milhas. Pierrick Letouzé considera que a etapa será menos física do que a anterior, mas mais complexa do ponto de vista meteorológico, com modelos pouco convergentes e estratégias menos evidentes. Marie Gendron admite preferir este tipo de etapa de vento fraco, embora antecipe maior desgaste mental do que físico.
Também Léo Bothorel aponta desde a partida duas grandes opções estratégicas: permanecer mais junto à costa ou tentar posicionar-se mais ao largo para evitar zonas de instabilidade e trovoada ao largo da costa espanhola. Thomas de Dinechin, que perdeu terreno na primeira etapa, vê nesta ligação uma oportunidade para recuperar as duas horas e meia que o separam dos primeiros, classificando a etapa como um “enorme jogo de póquer” na Biscaia.
Na frente da classificação geral, Tom Dolan, em Kingspan, entra na etapa com a pressão natural de defender a liderança conquistada em Vigo. O irlandês reconhece que há muito a ganhar e muito a perder, sobretudo nas primeiras 24 horas, fase em que a frota poderá começar a fragmentar-se. Erica Lush vai mais longe e admite mesmo que esta etapa poderá ser decisiva para a própria Solitaire, caso as diferenças à chegada se revelem muito mais amplas do que na primeira ligação.
Para vários skippers, a chave estará na gestão emocional. Hugo Dhallenne descreve a etapa como errática, com necessidade de oportunismo constante, enquanto Martin Le Pape defende uma abordagem mais filosófica, procurando evitar oscilações emocionais excessivas numa etapa onde o fator aleatório poderá ter peso elevado. Nicolas Lunven resume o desafio de forma direta: será preciso manter concentração e lucidez durante mais tempo do que os adversários.
A segunda etapa segue assim para norte com um perfil muito diferente da primeira: menos dureza física aparente, mas maior incerteza tática, menor previsibilidade e possibilidade real de abrir diferenças grandes entre os primeiros e os restantes. Entre Vigo e Pornichet, a La Solitaire volta a entrar num terreno onde um pequeno erro pode custar horas — e onde uma boa leitura do vento pode mudar toda a classificação.
Fotos: © Thomas Campion e © Vincent Olivaud

















